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As Unhas do Tio Patinhas

por Mammy, em 30.09.13

Cortar as unhas ao J., na sala com a televisão ligada, e ele a ler uma Comix, alheio ao clic clic do corta-unhas e às parvoeiras da televisão.

 

Este dia já está ganho!

publicado às 23:34

Conversa Pré-Sono a Cair Para Conversa Pós-Sono

por Mammy, em 30.09.13

Quando o J. já devia estar a dormir chamou-me:

 

-Mãããããeeeee!

- Sim, J., o que é?

- Preciso que venhas aqui, senão não consigo dormir!

- Então? Que se passa?

- Vem aqui um bocadinho para falarmos, por favor!

 

Fui ao quarto e sentei-me no pufe já que a conversa ia ser longa.

 

- Diz lá, o que se passa?

- Lembraste daquele jogo em que jogámos contra aquela equipa azul?

- Quando?

- No ano passado, lembraste?

- Não!

- Ganhámos por 88/2, não te lembras?

- Desculpa, mas não. Sabes que nunca me lembro de quais são as equipas... Mas o que é que tem essa equipa?

- Eu acho que devia ter-lhes passado a bola.

- A quem? À outra equipa?

- Sim. Eles devem ter ficado tristes... Estou "influenciado" com esse jogo.

- Influenciado?

- Sim. Acho que devia ter-lhes passado a bola... Eles se calhar ficaram a chorar...

- Oh, não ficaram nada. Queres dizer que ficaste com peso na consciência, não é? Não é "influenciado".

- Sim, fiquei a pensar nisso. Como é que sabes que eles não ficaram tristes? Tu nem sequer te lembras do jogo!

- Sim, mas sei que perder e ganhar faz parte do jogo e que não é razão para eles ficarem tristes.

- Mas se eu lhes tivesse passado a bola...

- Não, J., tu não podes passar a bola à outra equipa. Cada equipa joga para a sua equipa. Eles ainda não sabiam jogar tão bem como vocês por isso perderem. Vocês também já perderam muitas vezes... Perder é tão importante quanto ganhar, faz com que as equipas vejam que têm que se esforçar mais ou melhorar. Só assim podem perceber os erros, se perderem de vez em quando.

- Mas ganhámos por tantos... Coitados!

- Vocês também já perderam jogos assim e, depois, melhoraram.

- Pois perdemos...

- Vê se dormes agora e não penses mais nisso, ok?

- Ok, vou tentar dormir.

- Boa noite!

- Boa noite, mãe!

 

E dormiu.

publicado às 01:40

Invisível Estou, Invisível Sou

por Mammy, em 23.09.13

Abandonei-me à beira da estrada. O corpo moído cai trôpego. Já não sinto os braços, as pernas ou a cabeça. Tudo me desliza, se entorna, cai.

Sei que ainda tenho a garrafa de vinho na mão. Oiço o barulho do saco de plástico que a envolve ao mínimo movimento dos meus dedos. 

Vejo pés que passam sem abrandar. Chinelos, sandálias, sapatilhas, sapatos de salto alto e de atacadores passam por mim sem abrandar.

Sei que estou aqui porque ainda me sinto o cheiro. Cheiro mal, sei que cheiro mal. Já nem me lembro do último banho ou de quando mudei de roupa. Os meus pés começam a pisar a passadeira que tantos atravessam sem me verem.

Será que morri? Morri sim! Já ninguém me vê. Sei que estou invisível ou que...

 

 

Foto DAQUI


...invisível sou.


publicado às 23:24

Esquecida

por Mammy, em 20.09.13

Às vezes, perdemo-nos, e gritamos para dentro, e ninguém nos ouve.

 

Olhamos em volta e está tudo errado. Olhamos para dentro e está tudo errado.

Fixamos os outros, fixamo-nos nos outros. Ficamos a viver os outros, esquecidos de nós, perdidos. 

 

Às vezes, esquecemo-nos onde nos pusemos. "Onde é que eu me deixei pela última vez? No sofá? Na mesa da sala? No escritório? Na cama?". E reviramos a mala, o quarto, a alma. 

Esquecemo-nos tão só.

publicado às 00:35

Passo Acelerado

por Mammy, em 19.09.13

Acelerava o passo. Talvez para chegar a tempo ao autocarro...

De mãos nos bolsos, ombros avançados e andar gingão, acelerava o passo. 

As calças eram de ganga, largueironas. Da t-shirt branca saiam-lhe os braços com desenhos coloridos tatuados. Usava brincos e piercings intercalados nas orelhas. Tinha boné preto meio de banda. Nas costas, uma mochila verde com uma menina de pernas a baloiçar ao ritmo da passada. Ela aconchegava-se-lhe. E procurava o sono no embalo do passo acelerado do pai.

 

Do sítio do costume

publicado às 00:02

Resposta Ao Comentário da Pseudo no "Post" Abaixo

por Mammy, em 18.09.13

A Pseudo escreveu assim: "Que exagero, Mammy! O programa só tem esse objectivo em mentes muito mesquinhas. Ele é essencialmente usado para verificar o consumo do cartão. :)". (http://sermaeetramado.blogspot.pt/2013/09/giae-ai-ai.html)

E eu respondo assim:

 

Pseudo, Tens razão, sou um bocado exagerada e, por vezes, sinto as coisas mais fortes do que elas são na realidade. Mas no caso desta plataforma, infelizmente, não me parece que seja exagero meu.

 

Senão vejamos: - a plataforma GIAE tem mais funcionalidades do que a de verificação dos consumos do cartão. Através dela, além dos consumos em almoços e papelaria, respectivos carregamentos e marcações das refeições, os pais têm acesso aos sumários das aulas, faltas dos alunos e dos professores e, conseguem até saber se o seu educando chegou atrasado à aula (caso o professor lhe marque falta e depois da sua chegada, a retire).

 

Saber tudo isto não seria um problema se fosse contado pelo educando ao educador, ou até mesmo pelo professor aos pais. Mas quando é sabido através de uma plataforma informática, aí, passa a ser um problema. Porque se corta no diálogo e se o substitui por um clique; porque seguir os filhos através de um ecrã de computador dá uma falsa ideia de controlo e acompanhamento; e porque, ao utilizarmos estes meios impessoais e à distância, estamos a permitir que nos afastem fisicamente dos nossos filhos, em prol de uma falta de tempo para os acompanhar que acabamos por consentir.

Seguir os filhos através de um computador não é segui-los, não é apoiá-los, não é estar presente. É camuflar a nossa ausência na vida deles, enganando-nos com a ideia de que sabemos o que fazem, como estão e do que precisam. Na verdade, através do GIAE não sabemos nada sobre eles, mas achamos que sim. E isso é que é perigoso, o fingimento para connosco próprios, para com os pais que deixámos de ser sem sabermos.

O clique que nos ilude com a falsa presença permanente na vida dos nossos filhos devora a proximidade, o diálogo, a relação pais/filho. Consome-a e substitui-a por um nada que achamos tudo.

 

E é isso que me assusta!

publicado às 00:12

GIAE Ai Ai!

por Mammy, em 17.09.13

Hoje, tomei conhecimento DESTA BELA FERRAMENTA e fiquei atónita. Informação informatizada dos vários intervenientes nas escolas, cujo acesso é permitido a encarregados de educação, alunos, docentes e funcionários. Acessos diferentes, é certo, mas acessos que permitem, no caso dos encarregados de educação, seguirem os passos dos filhos como se eles estivessem num qualquer reality show. Comecei a imaginar a alegria que alguns pais deverão sentir em poder saber o que fazem os filhos na escola à distância de um simples clique, no sentimento de controlo que os deverá invadir e na sensação de descanso que terão por manterem os filhos "sempre debaixo de olho".

 

E aí, caiu-me a ficha. 

 

A impressão de que valores, como a confiança e a responsabilidade, se estão a esvair num sopro, de que a comunicação interpessoal e familiar se perde a cada dia, e de que as relações virtuais se estão subtilmente a instalar, tomou posse de mim. Senti o coração a reduzir-se ao tamanho de uma noz. A capacidade de resiliência começou a abandonar-me e uma enorme sensação de perda apoderou-se do meu íntimo. O medo instalou-se, apavorando-me as entranhas, e os braços teimaram em deixar-se cair. 

Tudo o que sempre defendi, tudo em que acreditei, está cada vez mais longe. Não porque a crença se tenha evaporado, mas porque o mundo está a engolir as relações humanas num ápice. E a incapacidade de as segurar, enquanto me escorrem por entre os dedos, tortura-me. Por mais que eu queira continuar a acreditar que a força anímica é a mais poderosa de todas e que as pessoas se constroem muito pelas relações humanas que vão cultivando, o meu coração de mãe tem que se render à evidência de que esta luta é tão dura quanto inglória.

E vejo, agora, que não luto só por proporcionar, ao meu filho, a possibilidade de se tornar numa pessoa mais rica interiormente, num coração maior, numa pessoa inteira e feliz, mas que também luto, (in)cansavelmente, contra tudo o que me rodeia. 

publicado às 00:19

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