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Sessenta Anos

por Mammy, em 04.07.14

Sessenta anos. Fazes hoje sessenta anos e eu lembro-me bem de ti com menos de trinta. Mais novo do que eu agora. Quase dez anos mais novo do que eu agora. 

Olho para trás e vejo que o tempo passou sem que nos tivéssemos dado conta. Houve várias vidas que deixámos lá longe, à distância de muitos dias, e de ausências, e de vozes perdidas. Deixámos lá atrás o som da música que ouvíamos, a beleza das paisagens, as conversas, o mar... Deixámos lá e não podemos voltar para ir buscar esses momentos. 

Apenas a memória nos devolverá a sensação que eu criança e tu jovem trintão. A memória e o aperto no peito... Lembro a espera. Lembro tão bem a espera. Sabes, pai, se há coisa de que me lembro em criança é da espera? De te esperar sem que viesses. E, quando vinhas, da cabeça fora da janela do carro e do vento que me embaraçava os cabelos e me secava a boca. E do vento, pai. Lembro-me bem do vento. E da tua voz entre o vento...

 

Pois é, pai, sessenta anos e eu quase quarenta. E vidas deixadas lá atrás, amarradas a lembranças que esgotámos e fizemos renascer quase puras. Porque o que deixámos antes, ficará para sempre guardado nas nossas memórias e ressuscitará em quadradinhos de afecto embrulhados em papel celofane que ofertaremos um ao outro em dias de anos. Como este.

 

publicado às 17:49

Troca de Garlaitinhos

por Mammy, em 30.06.14

J. a ver fotos na máquina do pai.

- Tchiii, adoro esta! E esta. E esta. Eh pai, tiras fotos espectaculares! Não sei como consegues tirar sempre fotos tão boas...

O pai olha-o com cara de "estás-me a dar graxa, estás".

- Não, pai, isto não é troca de garlaitinhos! É a verdade!

- Troca de quê?

- Garlaitinhos.

- De quê?

- Troca de garlaitinhos.

- Ah, troca de galhardetes?!

- Pois... Mas não é!

 

 

Imagem DAQUI

 

publicado às 00:14

Coração Elástico

por Mammy, em 26.06.14

Cheguei à conclusão que o meu coração é elástico. 

Com os anos, vai-se a elasticidade da pele, mas fica a do coração. Melhora a do coração. Com a idade, tenho aprimorado a capacidade de encolher e esticar o coração num, cada vez, menor espaço de tempo. 

Numa questão de segundos, o órgão que me comanda as pulsações passa de minúsculo a enorme. Ora me ocupa o peito todo e ainda me sobra para a barriga e pescoço, ora tenho que o procurar duvidando se não se perdeu por algum vaso sanguíneo. 

 

Não digam a ninguém, mas ando desconfiada que a culpa desta elasticidade cardíaca é do meu filho... À medida que vai crescendo e saindo debaixo das minhas saias e asas, o meu coração intensifica os exercícios de estica/encolhe, estica/encolhe. 

Volta e meia, o puto faz algo grandioso (sim o meu filho faz muitas coisas grandiosas) e o meu coração deixa de caber em mim. Meia volta e uma, está longe da saia e da asa e eu de rabo para o ar à procura de um coração minúsculo que me saltou do peito.

 

Dizem as más-línguas que isto não fica assim, que quanto mais os filhos crescem, mais os corações dos pais se exercitam e ficam qual fanático do desporto. 

 

Oxalá se enganem...

 

DAQUI

publicado às 19:23

"A Morte Saiu À Rua"

por Mammy, em 25.06.14

Não se chorava ali. Cruzavam-se conversas do tempo, da escola, de negócios. De vez em quando do T.. Amigo, diziam. "Ele costumava passear-me na altura em que me separei. Pensava que estava pior do que realmente estava e achava que me distraía se me passeasse". Fez o mesmo com a minha mãe, lembrei-me. Passeou-a bastante para a distrair. 

"Todos os sábados, ligava ao T. para tomarmos café. Este sábado ele já não está cá". Este sábado, o café já não vai saber ao mesmo e o mundo será mais pobre. Perdeu um amigo. 

Não se chorava ali. E o assunto mudava. Falava-se do tempo, da escola, de negócios. De vez em quando do T.. "Não trataram dele como deviam no hospital. Um dia, cheguei lá e o ar-condicionado estava a quinze graus. O T. tremia."

Já não treme agora. Nem o encontramos mais na rua. Ficamos à espera de o ouvir falar sobre o estado do país. Ficamos à espera das suas palavras tão certas. E da sua resistência. Resistência ao mundo, e às doenças. Era um sobrevivente, diziam. E o mundo perdeu mais um.

 

"Onde estiveste, mãe?"

"No cemitério" 

"Quem morreu?" 

"O T." 

"Porque não me contaste antes?"

 

Para te poupar... Talvez... Pensei que podia não ser preciso contar-te...

 

"Não sei como reagir à morte, mãe."

 

E eu não sei como explicar-te a morte, filho.

 

"Eu conhecia-o. Falei com ele. Não sei como reagir à morte." 

 

E eu não sei explicar-ta. 

 

"Devias ter-me contado mais cedo."

 

Pois devia. Talvez... Podia não ter sido preciso contar-te...

 

publicado às 04:24

De Capa e Espada. Ups, não! De Capa e Fitas.

por Mammy, em 10.06.14

Por influência dos pais, o J. disse que não queria capa com fitinhas de finalista do quarto ano. Disse que não gostava, que não queria porque não queria. Pronto.

A mãe, cheia de peso na consciência de fazer a criança ter estes arranques de personalidade de quem está sempre do contra, pergunta:

- Tens a certeza? Não queres mesmo a capa?

- Não, mãe, não quero. Aquilo é uma parvoíce!

- Mas no fim da festa de finalistas, vão dar a capa a todos os meninos e tu vais ser o único que não tens. Não vais ficar triste?

- Não, mãe, qual é o problema? Aquilo não tem piada nenhuma...

- Mas vão chamar cada um de vocês ao palco para entregar a capa e a ti não vão entregar nada. Tens a certeza que não queres que eu compre as fitas?

- Tenho, mãe, já disse que não quero!

- Então, quando fores grande e andares no psicólogo, não me venhas cá culpar de não teres uma recordação do quarto ano, ok?

- Pronto, mãe, está bem, compra lá as fitas!

publicado às 23:23

Chego Tarde

por Mammy, em 10.06.14

Tento adivinhar-te

Aqui, a esta pouca distância

 

Será que já dormes?

 

Imagino-te o sono lento

E solto

A respiração compassada

As costas trémulas

Acordar-te

Ou adormecer-te no meu regaço

 

Será que já dormes?

 

E chego tarde

Como sempre.

 

publicado às 00:55

Tempo Sem Fim

por Mammy, em 09.06.14

Cheiro da rua sem escapes

Ar, narinas adentro, até ao fundo

Céu rosa e amarelo lá longe onde a paisagem se faz tela

 

Saudades da terra e da erva

Saudades dos fios da palha nos dedos

 

Rua que passa na janela do comboio à distância do vento na face

Boca aberta e língua encortiçada pela pressa da viagem

 

Saudades do tempo sem fim

 

publicado às 00:43


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