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Sei Que Estás Aqui

por Mammy, em 27.07.14

Às vezes, sinto-me sozinha. Tão sozinha, neste mundo, que acho que ninguém me entende. Nessas alturas, falo contigo e sinto-me menos sozinha. Ou acompanhada na minha solidão. Vejo-nos aos dois, juntos e sós, no meio de uma multidão. Chega a ser claustrofóbico. Tento respirar o ar dos outros, mas ele não me chega. Não nos chega. Tento falar-lhes, mas não me ouvem. Ou fingem que não ouvem. Ou não me saem palavras que queiram entender.

 

Às vezes, esta solidão preocupa-me. Outras não. Sei que estás aqui.

E isso chega-me.

 

publicado às 02:18

Sessenta Anos

por Mammy, em 04.07.14

Sessenta anos. Fazes hoje sessenta anos e eu lembro-me bem de ti com menos de trinta. Mais novo do que eu agora. Quase dez anos mais novo do que eu agora. 

Olho para trás e vejo que o tempo passou sem que nos tivéssemos dado conta. Houve várias vidas que deixámos lá longe, à distância de muitos dias, e de ausências, e de vozes perdidas. Deixámos lá atrás o som da música que ouvíamos, a beleza das paisagens, as conversas, o mar... Deixámos lá e não podemos voltar para ir buscar esses momentos. 

Apenas a memória nos devolverá a sensação que eu criança e tu jovem trintão. A memória e o aperto no peito... Lembro a espera. Lembro tão bem a espera. Sabes, pai, se há coisa de que me lembro em criança é da espera? De te esperar sem que viesses. E, quando vinhas, da cabeça fora da janela do carro e do vento que me embaraçava os cabelos e me secava a boca. E do vento, pai. Lembro-me bem do vento. E da tua voz entre o vento...

 

Pois é, pai, sessenta anos e eu quase quarenta. E vidas deixadas lá atrás, amarradas a lembranças que esgotámos e fizemos renascer quase puras. Porque o que deixámos antes, ficará para sempre guardado nas nossas memórias e ressuscitará em quadradinhos de afecto embrulhados em papel celofane que ofertaremos um ao outro em dias de anos. Como este.

 

publicado às 17:49

Coração Elástico

por Mammy, em 26.06.14

Cheguei à conclusão que o meu coração é elástico. 

Com os anos, vai-se a elasticidade da pele, mas fica a do coração. Melhora a do coração. Com a idade, tenho aprimorado a capacidade de encolher e esticar o coração num, cada vez, menor espaço de tempo. 

Numa questão de segundos, o órgão que me comanda as pulsações passa de minúsculo a enorme. Ora me ocupa o peito todo e ainda me sobra para a barriga e pescoço, ora tenho que o procurar duvidando se não se perdeu por algum vaso sanguíneo. 

 

Não digam a ninguém, mas ando desconfiada que a culpa desta elasticidade cardíaca é do meu filho... À medida que vai crescendo e saindo debaixo das minhas saias e asas, o meu coração intensifica os exercícios de estica/encolhe, estica/encolhe. 

Volta e meia, o puto faz algo grandioso (sim o meu filho faz muitas coisas grandiosas) e o meu coração deixa de caber em mim. Meia volta e uma, está longe da saia e da asa e eu de rabo para o ar à procura de um coração minúsculo que me saltou do peito.

 

Dizem as más-línguas que isto não fica assim, que quanto mais os filhos crescem, mais os corações dos pais se exercitam e ficam qual fanático do desporto. 

 

Oxalá se enganem...

 

DAQUI

publicado às 19:23

Chego Tarde

por Mammy, em 10.06.14

Tento adivinhar-te

Aqui, a esta pouca distância

 

Será que já dormes?

 

Imagino-te o sono lento

E solto

A respiração compassada

As costas trémulas

Acordar-te

Ou adormecer-te no meu regaço

 

Será que já dormes?

 

E chego tarde

Como sempre.

 

publicado às 00:55

Liderança

por Mammy, em 08.06.14

DAQUI

 

Há pais que aspiram ter filhos líderes, que saibam comandar, que se sintam à vontade em qualquer ambiente, que brilhem sempre, que mobilizem multidões. Há pais que tentam que os filhos frequentem todos os ateliers, actividades, ou workshops para adquirirem, entre outras, capacidades de liderança.

 

Nós não somos desses pais. Mas o nosso filho é desses filhos.

 

O sacana do rapaz é um líder nato. E, ao contrário dos pais que querem filhos líderes, nós não ficamos inchados quando o vemos a comandar as tropas, ficamos assim como que envergonhados. Não gostamos de o ver a querer mandar nos outros, achamos que é um pouco prepotente.

Quando lhe dá para brilhar e destacar-se num qualquer espectáculo escolar, não nos esticamos, para quem procura os pais daquele miúdo nos encontrar, mas encolhemo-nos e tentamos esconder-nos um atrás do outro para que não nos descubram. Somos uns pais mais recatados do que o filho e a exposição pública incomoda-nos. Mas o miúdo gosta de dar nas vistas e, ainda por cima, tem jeito, o que, por outro lado, nos deixa orgulhosos quando faz das suas "gracinhas". Ficamos assim como que orgulho-envergonhados. O que é lixado, pois não sabemos muito bem como reagir a este mix de sentimentos.

 

Apesar de nunca aspirarmos um filho líder, o miúdo é líder e até é um bom líder... Não entra muito naquelas cenas parvas de gabarolice, consegue mobilizar um grupo de miúdos pela causa que defende e leva-os a darem o melhor si próprios (o que me parece uma boa qualidade num líder).

Como líder e como quem gosta de dar espectáculo, o puto está sempre no centro das atenções (quando não está, faz por estar), facto este que nos deixa demasiado expostos para o nosso gosto e que faz com que ele vá criando inimizades com outros miúdos que também pretendem a liderança e com que alguns dos pais desses miúdos se aproximem de nós cheios de falsidade e de segundas intenções. (Como se serem nossos amigos, fizesse com que o nosso filho deixasse o deles liderar... Ah ah ah! Se pensam assim, além de falsos e mal-intencionados, também são um bocado ingénuos...)

 

E pais destes põem-me a pensar na tristeza de sociedade em que vivemos, onde os pais se esquecem que os filhos são pessoas a respeitar que têm de encontrar o seu lugar nos grupos por onde vão passando, e no mundo, e que têm de perceber onde se sentem melhor e onde querem estar, e nem todos se sentem bem a liderar ou é isso o que desejam. Se não é na função de líder que se sentem bem porque insistem os pais em torná-los líderes? Porque não os ajudam a procurar o seu lugar em vez de os obrigarem a tomar posições que os deixam desconfortáveis? Nós também tivemos que nos resignar ao papel de destaque que o J. gosta de desempenhar e não o obrigámos a ficar numa posição mais discreta que seria bem mais confortável para nós.

A imagem destes pais faz acentuar o fosso que há entre nós, pais do J., e a maior parte dos seres que educam crianças neste mundo, o que faz com que também se acentue o fosso que vai nascendo entre o nosso filho e a maior parte dos colegas e que tornará tudo isto a que chamamos vida bem mais difícil para ele.

E nesta altura, penso que as dificuldades também nos fortalecem, deixo para trás todas as outras dúvidas, volto à pergunta "O Que Desejamos Para os Nossos Filhos?" e agarro-me ao

 

"QUE SEJAM FELIZES!".

publicado às 02:22

"A Arte Vem de Dentro"

por Mammy, em 24.05.14

O amor é, assim, uma coisa meio estranha de se explicar... Esconde-se-nos nas entranhas e vem à superfície em momentos de que não estamos à espera. Às vezes, um gesto, uma palavra, um olhar, um cheiro, dizem tudo. Às vezes, um gesto, uma palavra, um olhar, um cheiro, não dizem nada. Ou dizem que nada se passa ali. Às vezes, basta uma coisinha minúscula para nos apercebermos que o amor se foi. Ou uma coisinha minúscula para nos lembrar que ele sempre esteve ali.

 

Às vezes, olho para este homem e sinto o coração encher. Como se o insuflassem com uma bomba de encher pneus, o coração cresce, cresce, cresce. 

Acontece-me especialmente quando o cheiro, mas também quando o oiço dizer coisas tão certas que me fazem estremecer. Este homem enche-me o coração de amor e o corpo todo de orgulho, quando se sintoniza no mesmo posto que eu. E não são raras as vezes que isso acontece. 

Ao fim de tantos anos juntos, seria de esperar uma repetição contínua de momentos. A verdade é que as há, claro que há. Mas também há momentos mágicos, em que aquela pessoa que está ali à nossa frente, e que conhecemos tão bem, nos surpreende, nos fascina e nos toca no ponto G da alma. 

 

Há já algum tempo que temos por hábito discutir algumas questões filosóficas... Uma das mais recorrentes é "o que é a arte".

Por sermos ambos ávidos por arte, frequentamos alguns meios artísticos com prazer e, infelizmente, temo-nos deparado com ambientes artísticos demasiado elitistas e círculos completamente fechados ao público em geral. De tal modo fechados que quase só lá entram o autor e convidados. Estes locais têm-nos deixado perplexos e francamente decepcionados com o modo de como a arte é tratada neste país.

 

E aí "vem-nos à memória uma frase batida": o que é a arte afinal?

 

Será algo super elaborado que tem de ser explicado para o comum dos mortais entender? Ou será aquilo que nos chega e nos toca, que nos diz qualquer coisa, boa ou má, mas que mexe connosco?

No meio desta nossa habitual discussão, este homem diz "a arte vem de dentro!" 

E diz tudo. A arte vem de dentro de quem a cria e de quem a contempla. É assim, meio como o amor... 

A arte não se explica. Vem de dentro!

publicado às 00:17

Eternizar a Infância

por Mammy, em 24.02.14

Nós, pais, sentimos os nossos filhos sempre bebés. Olhamos para eles e vemos o bebé a dormir, as primeiras palavras, os beijinhos cheios de baba, os choros, os primeiros passos... Por maiores que os nossos filhos sejam, serão sempre os nossos pequeninos.

Mas daí a não os deixarmos crescer, vai uma grande distância. Ou devia ir...

 

Crianças de cinco anos que não comem sozinhas, alguma coisa está mal. Miúdos de sete anos que não limpam o rabo sem ajuda, algo está errado. Se aos dez anos não tomam banho e não se vestem sozinhos, o problema é grave. 

O problema grave está nas crianças e nos pais. E o problema é especialmente grave quando vem dos pais. 

 

Perpetuar a infância porque se perpetua a dependência dos filhos em relação aos pais, é proibi-los de crescer, é atar-lhes as mãos e os pés e dizer-lhes "tu, sem mim, não és nada!". E isso é horrível! É tão horrível que ouvimos pais, especialmente mães, dizer que "ele não come se não for eu a dar-lhe!", "sem mim, a minha filha não adormece. Não dá para a deixar em casa de ninguém.". Dizem isto cheias de orgulho. Do mesmo modo que dizem dos maridos "tenho que ser eu a escolher a roupa senão ele vai todo mal vestido para o trabalho!". E os maridos também se orgulham da sua incapacidade de se vestirem sozinhos "se não fosse a minha Maria, eu vestia umas calças aos quadrados com uma camisa às riscas. Ainda bem que tenho uma mulher tão prendada. Não tenho jeito nenhum para essas coisas!". 

 

Quando oiço coisas destas, fico a pensar por que raio de carga de água as pessoas se orgulham de ser incapazes e porque valorizam tanto a dependência umas das outras. Depois penso mais um pouco e interrogo-me se não será pelo medo de perder o outro que se o prende a imbecilidades, como a escolha da indumentário ou do cardápio. Se não será o medo de perder o outro que se o torna dependente nas pequenas coisas, porque nas grandes eles nunca o serão?

Tal como se faz com os maridos, faz-se com os filhos. Não se os ensina a cozinhar, a lavar a própria roupa, a passar a ferro, para que não saiam de casa cedo. Precisam das mães em adultos para lhes cuidarem da casa e lavarem as cuecas. 

 

Isto é triste, porque se confunde amor com serventia e com dependência.

Maridos e filhos não precisam de mulheres e mães para sejam suas empregadas, precisam de pessoas que os amem. E amar não é escolher a roupa ou lavar as cuecas, amar é dar noções de estética (quando estas não existem mesmo) para que se vistam sozinhos e ensinar os programas da máquina da roupa para que lavem as cuecas sem ajuda. 

 

Amar é tornar o outro independente de nós e mesmo assim ele querer-nos por perto. Amar é voar ao lado, não é partir as asas para que tenham que nos pedir boleia.

publicado às 12:18


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