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A Estúpida Ideia Do Secretismo Da Informação

por Mammy, em 23.10.12
Trabalho neste país há 15 anos. 
Nestes 15 anos, saltitei por vários empregos, mas em todos eles encontrei um denominador comum: A ESTÚPIDA IDEIA DO SECRETISMO DA INFORMAÇÃO.
Muitos trabalhadores guardam uma grande quantidade de informação só para si, retêm-na e não a partilham propositadamente para se sentirem em vantagem relativamente aos colegas. Têm medo de serem ultrapassados pelos outros. Pensam que se partilharem aquilo que sabem, os colegas vão singrar mais do que eles, vão ser promovidos e vão tornar-se mais importantes aos olhos dos chefes. E estancam a informação. De tal modo, que acabam por comprometer toda a dinâmica da empresa onde trabalham, porque esta passa a ser mais lenta, e cheia de defeitos e lacunas.

Normalmente, estes trabalhadores também não perguntam nada aos colegas. Fingem que sabem e que conseguem fazer tudo sozinhos. Porque são muito competentes. E são tão competentes que só fazem porcaria. E escondem a porcaria debaixo do tapete. Vão varrendo, diariamente, as asneiras, que podiam ter sido evitadas se tivessem a humildade de perguntar aquilo que não sabem, para debaixo de um tapete enorme. 
Um dia, é necessário tirar o tapete para limpar o chão, e descobre-se um acumulado de porcarias apinhadas, bolorentas e irremediavelmente estragadas. Quando isto acontece, eles arranjam, à pressa, um bode expiatório: o colega do lado a quem eles não quiseram fornecer a informação solicitada, ou o outro colega do lado que não lhes disse aquilo que eles não lhe quiseram deliberadamente perguntar, porque já sabiam tudo.
Ardilosamente, conseguem centrar o problema na procura de um culpado, que nunca são eles e são sempre todos os que os rodeiam. Desviam a atenção do mais importante, a resolução do problema. Baralham toda a gente e conseguem fazer com que a empresa, em peso, passe a andar de rabo para o ar à procura do sacana do culpado, em vez de resolver a questão, melhorar a dinâmica previamente, por eles, sabotada e produzir mais e melhor.

Enfim, assim é Portugal!

publicado às 01:35

Observação da Espécie

por Mammy, em 20.10.12
Faço um exercício, quase diário, que consiste em observar as pessoas sem as ouvir, e ouvi-las sem as ver.
Gosto de ver as expressões faciais e os movimentos dos seus corpos e inventar as palavras que poderão estar a dizer. Gosto de tentar analisar / interpretar os sons que proferem, imaginando um contexto e ilustrando-o com semblantes.

Faço jogos sozinha, no silêncio da minha mente: Serás capaz de adivinhar do que estão a falar? Que sentimentos descrevem estes movimentos? O que é que aquela cara quererá dizer?

A entoação da voz é tão reveladora... O franzido da testa, a posição dos lábios, o nariz que se contorce e o olhar, oh o olhar, que pode dizer tanto ou tão pouco...

Faço o mesmo jogo comigo, ao espelho: O que queres dizer com esse olhar? Esses olhos muito abertos desejam devorar o mundo ou assustam-se com ele? Será que quem te vê, vê-te na realidade? E quem te ouve? Entende o significado subjacente das tuas palavras?


Gosto da clarividência da adivinhação; gosto de tornar o desconhecido, conhecido; gosto da dúvida permanente que me exulta a mente; gosto do exercício cerebral, apenas e só, pelo exercício; gosto de observar a espécie para a descobrir e me tentar adivinhar.

publicado às 01:55

#8 Músicas Que Entranham

por Mammy, em 19.10.12

publicado às 16:34

Jéferson

por Mammy, em 15.10.12
Jéferson saiu do Brasil há dois anos. Mineiro de origem, boiadeiro de profissão, deixou o seu país, família e arte para procurar uma vida melhor além-mar.

Jéferson é pai de cinco filhos. O mais velho tem 20 anos e a mais nova fez, no mês passado, 6. Casado com Araci, morena bonita do seu coração, com quem dividia uma pequenina casa, de duas assoalhadas, na fazenda do seu antigo patrão, fazia das tripas coração para sustentar, e arrumar naquela casa, os 5 filhos.
Quatro dos filhos dormiam na sala. Dois na cama de ferro ferrugenta de corpo e meio e os outros dois no sofá. Daniela, a mais pequenina, partilhava a cama com os pais.

Araci trabalhava como criada na casa do patrão. Saía de casa antes do sol nascer e só voltava depois de ele se pôr. Tal como Jéferson. 

Depois de Araci tratar da arrumação do lar e dos filhos se deitarem, o casal juntava-se no alpendre de casa. Jéferson pegava no violão e tocava a banda sonora daquele amor, que tinha nascido com Araci a dançar  ao  som da música do seu, agora, marido.

Numa dessas noites de cumplicidade, Jéferson disse:
- Vou tê qui emigrá, Araci! Vou tê qui ir embora e trazê dinheiro p'rá esta casa! Tenho pensado muito nisso... Não temo manera de dá uma vida melhor p'rós nossos fihos, se eu continuá aqui. 
- Oucê qué ir embora? E deixá nós aqui, sem oucê?
- Não quero não, amô, má vou tê qui ir!

Jéferson escolheu Portugal como destino. Nos EUA já não recebiam brasileiros com tanta facilidade como antigamente, o ideal era a Europa, e na Europa, Portugal era o único país onde Jéferson iria entender a língua.

Deixou Araci e os 5 filhos para trás. Disse ao patrão que iria tentar melhorar de vida no estrangeiro, mas que voltaria 2 ou 3 anos depois e esperava que ele o recebesse de volta, nessa altura. 
O patrão assentiu. Gostava de Jéferson e conhecia-o desde pequenino. 
O pai dele trabalhou na fazenda até a morte lhe bater à porta. O filho substitui-o com toda a competência de filho de boiadeiro bravo.

Dia 25 de Setembro de 2010, chegou a Lisboa. Pensou que a capital seria o melhor sítio para se instalar, mas mal se apercebeu dos preços proibitivos das rendas de casa e dos quartos, mudou de ideias. Tentou nas redondezas e lá acabou por encontrar um quartinho para partilhar com mais três compatriotas.

Arranjou alguns trabalhos como servente nas obras, por períodos curtos. Dois, três meses e mandavam-no embora. Até que conseguiu um por seis meses, numa churrasqueira que vendia frangos assados exclusivamente para fora. 

Hoje, Jéferson ainda lá trabalha, dez horas por dia para receber 500€. 
Recepciona os frangos crus de manhã, caixas e caixas de frangos crus, e assa-os até à noitinha, caixas e caixas de frangos, agora, assados. 

Já quase não sente o calor das brasas que o desfaz em suor, já quase não ouve o patrão que lhe grita e o insulta, cada vez que ele não personaliza o que lhe vai em mente, já não toca a banda sonora do seu amor no violão, que tem encostado à cabeceira da cama, pois as pontas dos dedos queimadas já não sentem as cordas. 

Daniela entrou para a escola este ano, Jéferson não assistiu à filha caçula se tornar numa menininha crescida. Edson, o filho mais velho, vai casar para o mês que vem, e Jéferson não vai estar lá para dar a sua bênção. Araci tem dois vestidos novos, que ele viu nas fotografias que ela lhe enviou, e Jéferson não vai poder vê-la dançar com eles. 
Todas as noites, antes de dormir, olha a fotografia e pensa "como Araci deve ficá linda dançando com aqueli vestido das frôrzinhas..."

Mas Jéferson ainda não perdeu a esperança de ver Araci dançar com aquele vestido. Juntamente com os 200€, dos 500 que ganha mensalmente, e que manda religiosamente para Araci, envia um cartão que diz:

EM BREVE, NHÁ MORENA, EM BREVE OUCÊ DANÇARÁ P'RÁ MIM E EU TOCAREI P'RÁ OUCÊ.

Em breve...

publicado às 01:15

#7 Músicas Que Entranham

por Mammy, em 13.10.12


publicado às 01:48

Expliquem-me Lá Isto Como Se Eu Fosse Muito Loira, Se Fazem Favor!

por Mammy, em 13.10.12
- Quem é que está no governo?
PSD e CDS/PP, não são?

- Quem é que esteve no governo, há pouquinho tempo, e fez a mer** que todos nós sabemos?
PS, não foi?

- Quem é que nunca esteve no governo?
CDU e BE, não foram?

- Isto está a porcaria que está, por causa de quem?
Hã??? Não ouvi! Hã???

- E agora, digam-me lá, (que eu sou loira verdadeira e pintada, em simultâneo, e não percebo nada destas coisas) porque é que as intenções de voto são ESTAS?


Estamos num país nórdico, ou quê?!

publicado às 00:25

Portugueses e o Dinheiro

por Mammy, em 10.10.12
Imagem retirada da Internet

Portugal divide-se por dois grandes grupos e dois pequenos grupos.
Os dois grandes grupos são: 
- O dos portugueses que têm orgulho em não ter dinheiro;
- O dos portugueses que têm vergonha em não ter dinheiro.

O português-tipo do "grupo dos que têm orgulho em não ter dinheiro" exige tudo a todos os outros: ao Estado, ao pai, à mãe, ao primo afastado que está emigrado na Suíça, ao vizinho do lado, ao cão, ao periquito...
Verbaliza: "se eu não tenho dinheiro, quem tem é obrigado a sustentar-me"; "eu tenho direitos!" (e obrigações, não?).

Esta conversa pode parecer-vos um pouco "fascistolas", mas não é! Longe de mim querer, sequer, aproximar-me de tal ideologia!

Eu explico para evitar equívocos:
É por tanta gente exigir direitos, sem nada fazer para os merecer, que a divisão da riqueza é tão deficiente neste país. É por existir gente que se abotoa e se "encosta à sombra da bananeira" que quem realmente precisa fica em carência. É por existir tanta contra-produção, vestida de um exacerbado direito de ter e de poder, que sair deste rame-rame é um acto falhado.
Este português, porta-estandarte da ideologia do "eu tenho direito a isto e àquilo, porque sou pelintra e quero tudo de mão beijada", mata, à nascença, o que poderia ser um trabalho em conjunto para o conjunto.

Nunca, jamais e em tempo algum, direi que um português não tem direito a todos os direitos que lhe são legítimos! No entanto, terá que fazer alguma coisa para isso, nem que seja, apenas, esforçar-se por fazer alguma coisa (que nos dias de hoje, já é trabalho de merecido mérito, porque é extremamente difícil arranjar emprego e porque há quem tente boicotar tudo o que os outros tentam fazer!).

Por outro lado, o português-tipo do "grupo dos que têm vergonha em não ter dinheiro" também não é melhor.
A vergonha enche-o de desejos de grandiosidade. Quer tudo o que faça aparecer aos outros que nada diariamente numa piscina cheia de moedas: Quer a casa com 50 divisões; o carro-banheira; os cartões de crédito em tons de dourado com ""Eng." ou "Dr." a preceder-lhe o nome; o cão de raça, cuja trela não consegue aguentar; a escola, que obrigue o uso da farda, para os filhos; o telemóvel, que o avise quando deve ir à casa-de-banho ou que lhe diga que "afinal, não está assim tão aflitinho"; ser atendido num hospital luxuoso, onde haja quartos individuais, mas não há quem se lembre de lhe vir mudar a garrafa do soro, etc., etc...
Este português inveja um outro português, que virá, a seguir, e que pertence a um grupo mais pequeno, mas não menos expressivo no que diz respeito ao assassínio da divisão justa e igualitária da riqueza. Por causa desta inveja que sente, produz menos e exige mais numa tentativa de sustentar a aparente riqueza.

Por fim, temos dois grupinhos pequeninos de portugueses:
- O dos que têm dinheiro, com muito orgulho;
- O dos que se estão a cagar para o dinheiro.

O português-tipo do "grupo dos que têm dinheiro com muito orgulho" é petulante e arrogante. Atira à cara, sempre que pode, dos elementos dos restantes grupos que "quer, pode e manda"; amealha todas as moedinhas que apanha a cair dos bolsos dos outros e junta-as à sua enorme fortuna; inventa estratégias para multiplicar cada tostão e para se apoderar do que é dos outros; esmifra o adversário até ao tutano; usa e abusa de quem não o consegue enfrentar ou quem, pura e simplesmente, não o quer enfrentar, por medo ou por inveja disfarçada de admiração.
O grande problema deste português é que, normalmente, além de dinheiro, ou talvez associado ao dinheiro, também tem poder, que usa, única e exclusivamente, a seu bel-prazer.

At last, but not least, encontramos o português-tipo do "grupo dos que se estão a cagar para o dinheiro". Este português desejava não ser necessário ter dinheiro. Quer o necessário para usufruir em pleno do que a vida tem para lhe oferecer, nem mais, nem menos. Produz para viver, mas não vive para produzir, muito menos para amealhar ou exibir. Não quer o que não lhe pertence, nem pretende dar o que é seu. Divide os excedentes, mas não sustenta gulosos.

Porque não tem dinheiro, nem a mais nem a menos, orgulho, inveja ou vergonha, este português-tipo é desconsiderado por todos os tipos anteriores e, devagarinho (mas nem tanto assim), vai-se extinguindo como se da Grande Barreira de Coral se tratasse, consumida pela poluição e pelas águas quentes demais.

publicado às 02:24



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