Já o disse aqui e volto a repetir: Detesto extremismos!
As pessoas extremistas são cegas de um olho.
O outro olho, o que ainda vê alguma coisa, enxerga mal, muito mal e a má visão é agravada pelo estrabismo do olho vidente, que só as deixa ver em determinada direcção.
Os extremistas, estejam de que lado estiverem, só têm a percepção do outro extremo para o tentarem aniquilar ou converter, converter aos seus ideais, que são, geralmente, qualquer coisa tendencialmente fundamentalista. A intenção dos extremistas não é mudar nada e, se alguma vez vos disseram isso, enganaram-vos.
Os extremistas fazem-me lembrar aquelas pessoas que não viram a medalha por não quererem ver o seu reverso e, que quando o fazem, fazem-no muito discretamente para ninguém notar e cheias de medo de passarem a gostar mais da face inversa.
Ontem, assisti a imensas discussões, no Facebook e no Twitter, sobre a carga policial infligida a jornalistas e manifestantes e fiquei com aquela sensação estranha que estas discussões não servem para outra coisa senão para as pessoas se agredirem mutuamente (neste caso, apenas de uma forma verbal e virtual, mas aposto que se estivessem cara-a-cara, de certeza que continuariam os confrontos que a polícia e os manifestantes deixaram a meio!).
(Pensando bem, talvez assim até seja melhor, pois todos podem expiar as suas frustrações sem falarem alto, nem derramarem sangue, o que nos poupa a alguma poluição sonora e torna tudo muito mais higiénico.)
Nas ditas discussões, os apoiantes dos manifestantes desataram num disparate de ofensas aos polícias. Por sua vez, os apoiantes da polícia (alguns deles declaradamente polícias), desataram num disparate de argumentos para justificar o injustificável.
A violência desmesurada não tem justificação possível em nenhum dos extremos da barricada. Nem do lado dos manifestantes, que atiram pedras e ofendem as forças policiais, nem do lado da polícia, que lhes responde com pontapés e bastonadas a torto e a direito.
Não consigo defender ninguém, sem os defender a todos, tal como não consigo apontar o dedo a uns, sem apontar o dedo aos outros.
Lembro que a polícia, apesar de dar a cara pelo governo que a comanda, é constituída por homens e mulheres igualmente descontentes com a situação que o país atravessa e relembro as várias lutas que a PSP tem travado pelos seus direitos, sem ser atendida. E, como homens e mulheres limitados, das mais variadas formas, ao poder de contestação, também sentem revolta e indignação, que muitas vezes se reflectem em atitudes grosseiras e abusivas.
Os manifestantes, portadores de todo o legítimo direito a manifestarem-se, não devem, em caso algum, ser agredidos, física ou psicologicamente, pelas forças policiais, muito menos da forma grotesca como foram.
Os jornalistas, para fazerem o seu trabalho, estão bem no centro da batalha, e é ali que devem estar, pois só ali podem testemunhar os acontecimentos e as movimentações de ambos os lados. Eles arriscam-se (tal como os seus colegas especializados em guerras se arriscam a levar um tiro, com uma granada ou a pisarem uma mina) a levar uma bastonada, com uma pedra da calçada ou uma chávena de café na cabeça.
Eu acho que a grande nobreza desta profissão situa-se precisamente no risco que correm para nos informarem e para denunciarem as atrocidades cometidas por este mundo fora.
Se os polícias agiram mal, que agiram, os manifestantes também não se portaram muito bem, pois atirar pedras, chávenas de café, ou ovos não me parece que contribua positivamente para se fazerem ouvir.
E os jornalistas? Esses arriscam-se.
É por assistir a este tipo de debates que acho que o extremismo é contra-evolução e que quem só vê um lado da questão, não vê a questão toda e nunca lhe conseguirá dar uma resposta à altura.
Por fim, não quero abandonar este texto, sem antes lembrar o seguinte:
Enquanto andam todos distraídos à sapatada uns aos outros - manifestantes e seus defensores contra polícias e seus defensores - o governo continua a olhar-nos, lá bem de cima, com ar altivo, a fazer das nossas vidas o que bem entende, a tirar-nos A TODOS direitos e, sem dúvida, a pensar "que estúpido é este povo!".
E eu não lhe posso tirar a razão, porque enquanto o povo não se unir pelo bem COMUM, não deixará de ser, um tanto ou quanto, estúpido!