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Aqui, fala-se de filhos e de tudo o resto...
Sessenta anos. Fazes hoje sessenta anos e eu lembro-me bem de ti com menos de trinta. Mais novo do que eu agora. Quase dez anos mais novo do que eu agora.
Olho para trás e vejo que o tempo passou sem que nos tivéssemos dado conta. Houve várias vidas que deixámos lá longe, à distância de muitos dias, e de ausências, e de vozes perdidas. Deixámos lá atrás o som da música que ouvíamos, a beleza das paisagens, as conversas, o mar... Deixámos lá e não podemos voltar para ir buscar esses momentos.
Apenas a memória nos devolverá a sensação que eu criança e tu jovem trintão. A memória e o aperto no peito... Lembro a espera. Lembro tão bem a espera. Sabes, pai, se há coisa de que me lembro em criança é da espera? De te esperar sem que viesses. E, quando vinhas, da cabeça fora da janela do carro e do vento que me embaraçava os cabelos e me secava a boca. E do vento, pai. Lembro-me bem do vento. E da tua voz entre o vento...
Pois é, pai, sessenta anos e eu quase quarenta. E vidas deixadas lá atrás, amarradas a lembranças que esgotámos e fizemos renascer quase puras. Porque o que deixámos antes, ficará para sempre guardado nas nossas memórias e ressuscitará em quadradinhos de afecto embrulhados em papel celofane que ofertaremos um ao outro em dias de anos. Como este.
J. a ver fotos na máquina do pai.
- Tchiii, adoro esta! E esta. E esta. Eh pai, tiras fotos espectaculares! Não sei como consegues tirar sempre fotos tão boas...
O pai olha-o com cara de "estás-me a dar graxa, estás".
- Não, pai, isto não é troca de garlaitinhos! É a verdade!
- Troca de quê?
- Garlaitinhos.
- De quê?
- Troca de garlaitinhos.
- Ah, troca de galhardetes?!
- Pois... Mas não é!
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Imagem DAQUI |
Cheguei à conclusão que o meu coração é elástico.
Com os anos, vai-se a elasticidade da pele, mas fica a do coração. Melhora a do coração. Com a idade, tenho aprimorado a capacidade de encolher e esticar o coração num, cada vez, menor espaço de tempo.
Numa questão de segundos, o órgão que me comanda as pulsações passa de minúsculo a enorme. Ora me ocupa o peito todo e ainda me sobra para a barriga e pescoço, ora tenho que o procurar duvidando se não se perdeu por algum vaso sanguíneo.
Não digam a ninguém, mas ando desconfiada que a culpa desta elasticidade cardíaca é do meu filho... À medida que vai crescendo e saindo debaixo das minhas saias e asas, o meu coração intensifica os exercícios de estica/encolhe, estica/encolhe.
Volta e meia, o puto faz algo grandioso (sim o meu filho faz muitas coisas grandiosas) e o meu coração deixa de caber em mim. Meia volta e uma, está longe da saia e da asa e eu de rabo para o ar à procura de um coração minúsculo que me saltou do peito.
Dizem as más-línguas que isto não fica assim, que quanto mais os filhos crescem, mais os corações dos pais se exercitam e ficam qual fanático do desporto.
Oxalá se enganem...
Não se chorava ali. Cruzavam-se conversas do tempo, da escola, de negócios. De vez em quando do T.. Amigo, diziam. "Ele costumava passear-me na altura em que me separei. Pensava que estava pior do que realmente estava e achava que me distraía se me passeasse". Fez o mesmo com a minha mãe, lembrei-me. Passeou-a bastante para a distrair.
"Todos os sábados, ligava ao T. para tomarmos café. Este sábado ele já não está cá". Este sábado, o café já não vai saber ao mesmo e o mundo será mais pobre. Perdeu um amigo.
Não se chorava ali. E o assunto mudava. Falava-se do tempo, da escola, de negócios. De vez em quando do T.. "Não trataram dele como deviam no hospital. Um dia, cheguei lá e o ar-condicionado estava a quinze graus. O T. tremia."
Já não treme agora. Nem o encontramos mais na rua. Ficamos à espera de o ouvir falar sobre o estado do país. Ficamos à espera das suas palavras tão certas. E da sua resistência. Resistência ao mundo, e às doenças. Era um sobrevivente, diziam. E o mundo perdeu mais um.
"Onde estiveste, mãe?"
"No cemitério"
"Quem morreu?"
"O T."
"Porque não me contaste antes?"
Para te poupar... Talvez... Pensei que podia não ser preciso contar-te...
"Não sei como reagir à morte, mãe."
E eu não sei como explicar-te a morte, filho.
"Eu conhecia-o. Falei com ele. Não sei como reagir à morte."
E eu não sei explicar-ta.
"Devias ter-me contado mais cedo."
Pois devia. Talvez... Podia não ter sido preciso contar-te...
Por influência dos pais, o J. disse que não queria capa com fitinhas de finalista do quarto ano. Disse que não gostava, que não queria porque não queria. Pronto.
A mãe, cheia de peso na consciência de fazer a criança ter estes arranques de personalidade de quem está sempre do contra, pergunta:
- Tens a certeza? Não queres mesmo a capa?
- Não, mãe, não quero. Aquilo é uma parvoíce!
- Mas no fim da festa de finalistas, vão dar a capa a todos os meninos e tu vais ser o único que não tens. Não vais ficar triste?
- Não, mãe, qual é o problema? Aquilo não tem piada nenhuma...
- Mas vão chamar cada um de vocês ao palco para entregar a capa e a ti não vão entregar nada. Tens a certeza que não queres que eu compre as fitas?
- Tenho, mãe, já disse que não quero!
- Então, quando fores grande e andares no psicólogo, não me venhas cá culpar de não teres uma recordação do quarto ano, ok?
- Pronto, mãe, está bem, compra lá as fitas!
Tento adivinhar-te
Aqui, a esta pouca distância
Será que já dormes?
Imagino-te o sono lento
E solto
A respiração compassada
As costas trémulas
Acordar-te
Ou adormecer-te no meu regaço
Será que já dormes?
E chego tarde
Como sempre.
Cheiro da rua sem escapes
Ar, narinas adentro, até ao fundo
Céu rosa e amarelo lá longe onde a paisagem se faz tela
Saudades da terra e da erva
Saudades dos fios da palha nos dedos
Rua que passa na janela do comboio à distância do vento na face
Boca aberta e língua encortiçada pela pressa da viagem
Saudades do tempo sem fim