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Aqui, fala-se de filhos e de tudo o resto...
...É uma merda.
Às vezes esconde-se nas trivialidades. Na roupa que arrumamos, na cozinha, no jantar, na televisão, num gesto, no espelho, na porta da rua.
Procuramos.
E no fundo de uma vaso, que já não nos lembrávamos que existia, lá está ele, encolhido, com medo de se perder de vez.
Entornamo-lo sobre a mesa, a cama, ou mesmo o chão, e ele floresce como se regado. Apenas entornado, floresce.
Às vezes esta cena do amor é assim uma merda que floresce do nada.
Outras vezes foge de nós. E corremos atrás. E ele foge... Encurralamo-lo num canto e apanhamo-lo na esquina.
Ou não o apanhamos e perdemo-lo para sempre. Mas ao menos corremos...
Às vezes esta cena do amor é assim uma merda difícil de apanhar.
E outras vezes ainda, não há. Nunca houve. Inventámo-lo. E procuramo-lo noutros amores que não aquele. Sugamos outros amores porque aquele não. Não há. E vivemos na procura daquele que não há noutros.
Às vezes esta cena do amor é assim uma merda que temos que inventar. E que sentimos a falta...
Em mais uma conversa pré-sono, falávamos de umas supostas pretendentes do J.
- Ela disse que a minha letra era muito bonita!
- Oh, então está apaixonadíssima. Qualquer pessoa, no seu perfeito juízo, sabe que a tua letra não é nada bonita. Ela é voadora, nunca está toda sobre a linha. Mas bonita, não! Definitivamente, só uma pessoa apaixonada pode achar a tua letra bonita.
- Eh eh eh eh! Pois é. Pois, deve estar!
- E tu?
- Não sei. Ainda não sei.
- Mas há mais alguma menina que faça esse coraçãozinho bater com mais força?
- Há.
- Há? Quem?
- A M.
- E quem é a M.? Se é que posso perguntar?
- É aquela que vimos no outro dia, que tem o cabelo assim, mais ou menos, do tamanho do teu.
- Pois... Não sei. Sabes que há umas meninas lá da tua escola que eu confundo sempre. Nunca sei quem é quem. Mas não faz mal. Depois vejo se descubro. Achas que o coraçãozinho dela também bate com mais força por ti?
- Não sei.
- Mas porque é que esse coração acelera?
- Também não sei. Há qualquer coisinha nela...
- Que faz esse coração acelerar?
- Sim - envergonhado.
- Hummm!
- Hummm? Lá estás tu com o teu "hummm", mãe!
- Pois... É mesmo caso para "hummmm"! "Qualquer coisinha nela" quer dizer muita coisa. Hummm! Achas que ela também vê qualquer coisinha em ti?
- Não sei. O que é que tu achas? Diz-me tu.
- Eu? Eu é que não sei. Não vejo como ela reage. O que é que te parece? Ela reage de forma suspeita?
- Não, mas sabes que elas às vezes fingem!
- Hummm!
Assim de repente, sem pensar duas vezes, diria "que sejam felizes!".
Depois olho em volta e não vejo isso nas acções da maior parte dos pais. Não nas de todos, claro, mas nas da maior parte. Olho-os, oiço-os e vem-me à cabeça a palavra "sucesso" em vez de "felicidade". Sucesso nos estudos, no desporto, nas finanças, nas atitudes, nos comportamentos, na vida. Vejo-os gastar tempo e dinheiro, muito dinheiro por vezes, em mil e uma actividades. E tempo a dividir-se em muitos para conseguirem levar os filhos a essas mesmas actividades. Exigem que eles sejam bons em tudo o que fazem. E volto ao sucesso. Paro no sucesso. E fico a meditar a definição de sucesso.
O que é isso, sucesso? O que isso de se ser bom em tudo, de se saber fazer tudo? Ter infindáveis valências far-nos-á mais felizes? Ser bom far-nos-á mais felizes?
E desta vez, olho e oiço os filhos, e não me parecem felizes. Resignados, talvez. Mas felizes não.
Vejo crianças como pequenos adultos, cheias de stress para conseguirem dividir a atenção pelas mil e uma actividades que frequentam. Vejo crianças com dificuldades em interessarem-se pela música, o desporto, a catequese, os escuteiros, o karaté, a escola. Vejo crianças que no fundo, no fundo, só querem uma horinha livre para enfiarem a cabeça numa playstation e esquecerem tudo o resto. Vejo poucas crianças brincar. A capacidade de imaginar, de fingir, de inventar está a fugir-lhes. A capacidade de serem crianças está a fugir-lhes. Tento imaginá-las adultas e não consigo ver diferenças daquilo que são hoje, em crianças.
E uma vez mais, volto ao "sucesso". Será o sucesso sinónimo de felicidade? Tento rever mentalmente pessoas "bem-sucedidas" na vida, por exemplo, profissional, e noto-lhes infâncias bem diferentes daquelas que impingimos aos nossos filhos. Geralmente, foram crianças com uma aptidão que se foi acentuando ao longo dos anos. Foram pessoas que, através de uma grande força de vontade e resiliência, levaram uma paixão ao estatuto de profissão. Não digo com isto que às quais foi dado um mundo de instrução desde tenra idade não chegaram a uma situação de sucesso, também as há, claro que há, mas fico na dúvida se ao darmos uma imensidão de obrigações às nossas crianças, estamos a contribuir para um sucesso que as permita ser felizes. E se é esse sucesso, neste caso o profissional, que as vai tornar pessoas felizes. Fico na dúvida se não estaremos a traçar-lhes caminhos em vez lhos mostrarmos e deixarmos que sejam eles a escolher o deles; se não lhes estaremos a impor um futuro, em vez de os deixarmos amadurecer até terem capacidade para fazer as escolhas que entenderem. Fico na dúvida se o que realmente queremos para os nossos filhos é felicidade e não sucesso e se esse sucesso contribuirá, alguma vez, para que sejam felizes.
Fico na dúvida...
Chegou da escola com o pai. Mal entrou em casa, foi a correr para o quarto. Atirou a mochila para o chão, abeirou-se da janela e agarrou nos bonequinhos da Playmobil, com a pressa de quem tem oito anos e uma ânsia imensa de viver.
Alinhou-os, formando duas colunas: uma de guardas romanos e outra de guardas egípcios. Iniciou a batalha. De vez em quando, soltava uns “ya!”, “ai!”, “toma, toma!”, “catrapum!”. Imaginava que eram guardas de carne e osso e que se magoavam a sério, sempre que levavam uma traulitada na cabeça. Quando isso acontecia, lá vinham os enfermeiros improvisados, que não eram mais do que uns bonequinhos de outra colecção da Playmobil, a dos treinadores de cães. Sabia perfeitamente que no tempo dos romanos e dos egípcios não haviam enfermeiros como os de hoje, mas não se importava, pois queria era brincar e queria enfermeiros na história dele. E uns treinadores de cães armados em enfermeiros serviam muito bem esse propósito.
Saltavam bonecos pelo ar, iam de encontro às paredes e, por fim, acabavam por se estatelarem no chão. Era esta algazarra que o fascinava, eram os saltos, cada vez mais altos, e as cambalhotas acrobáticas que o impediam de parar a brincadeira com os bonecos. Queria que eles se superassem, que, apesar das duras batalhas que travassem, fossem invencíveis.
Era capaz de ficar horas naquilo: a fazer saltar bonecos pelo ar e a socorrê-los cada vez que se magoavam.
Este parecia ser um dia de brincadeira intensa, como tantos outros...
Até que, de repente, parou a brincadeira e fitou o pôr-do-sol, através da janela. “Oh, que lindo pôr-do-sol!”, pensou. Parecia mesmo aquele que viu, naquele dia de inverno, em que foi com os pais à praia...
Ele e o pai jogavam com as raquetes, a mãe lia um livro, deitada na areia. Estava toda vestida, cheia de frio como é costume dela. Lia o livro entre espreitadelas à brincadeira dos dois. Quando via uma boa imagem deles, do sol ou do mar, pegava na máquina e fotografava. A imagem da mãe deitada na areia, atenta a tudo, e a eles, ficou gravada na sua memória como as imagens dele e do pai, do sol e do mar, nas fotografias que ela tirou naquele dia.
O sol ia descendo devagarinho. Ele e o pai já suavam de tanto correrem e saltarem para apanharem a bola e a mãe, enroladinha na tolha, esboçava-lhes um sorriso tremido pelo frio. Que mãe friorenta, aquela!
Entretanto, o sol pousou no mar, iluminando a praia em tons de vermelho, mas ele só reparou nisso, quando a mãe o chamou, apontando para aquele astro gigante no horizonte, “Filho, olha!”. Ele olhou e correu para ela. Saltou-lhe para o colo e, abraçados, viram o sol entrar no mar, ao mesmo tempo que as cores da praia mudavam dos tons de vermelho para os de azul. Aquele abraço da mãe nunca lhe iria sair da pele. Foi um abraço vermelho e azul. Não há muitos abraços vermelhos e azuis e aquele foi dos poucos que sentiu até hoje.
Engraçado, agora que pensa nisso, apercebe-se que é sempre a mãe quem o lembra das coisas maravilhosas que vivem sobre a sua cabeça. É sempre ela que repara no que está para lá do ar. Engraçado...
O sol que teimava em deitar-se, ali mesmo à sua frente, através da janela do quarto, era igualzinho ao outro da praia, que viu ao colo da mãe. Só que este ia deitar-se sobre os montes, lá longe na linha que separa o céu da terra, em vez de no mar.
- Filho! – chamou o pai.
- Sim, pai?!
- O que estás a fazer?
- Estou a brincar.
- Ok! Mais meia hora e vais fazer os trabalhos de casa, está bem?
- Está bem, pai. Mas depois a mãe tem que ver se estão bem...
- Está bem, está bem! - responde o pai.
- Mãe, vês os meus trabalhos, não vês? - pergunta ele.
- Claro que sim, filho! – ouve-a dizer.
- Mãe, o que é o jantar?
- São almôndegas com esparguete, como tu gostas!
- Boa! Fazes sempre as minhas comidinhas preferidas, não fazes, mãe? Adoro as tuas almôndegas. As da escola são uma porcaria!
- Eh, filho, não acredito que sejam assim tão más!
- São, juro! São horríveis!
Voltou a olhar para o sol, até desaparecer por completo, até a luz que entrava pelo quarto adentro ficar azul. Como lhe saberia bem um abraço vermelho e azul, naquele momento...
- Mãe!!!! – gritou - Abraça-me! Mãeeeee!!!
- O que é? O que é que se passa? – pergunta-lhe o pai.
- Pai, estou a chamar a mãe, não é a ti! – responde, com lágrimas nos olhos.
O pai entra no quarto, senta-se ao lado dele, envolve-o nos braços com força, limpa-lhe as lágrimas e beija-o no rosto.
- Pai, eu estava a chamar a mãe, não a ti! - diz-lhe, entre soluços e com a voz a sumir-se-lhe por entre as lágrimas.
- Filho, a mãe já não está cá. – murmura o pai, com lágrimas a saltarem-lhe dos olhos.
- Está, pai! Ela fala comigo... Se ela não estivesse aqui, não falava comigo...
- Ela ficou dentro do teu coração e é a voz dele que tu ouves, sempre que pensas na mãe.
- Porque é que ela não está aqui para me abraçar, pai? - perguntou, quando a voz conseguiu passar-lhe para fora da garganta.
- Porque aquela doença malvada a levou. Mas, apesar de ela não estar aqui para te abraçar, ela está, e ficará para sempre, nesse teu coraçãozinho.
- Pai, dás-me um abraço vermelho e azul, dás?
O som do teu coração faz eco no meu peito
Tudo em mim dança, quando ele canta
Respiro no seu compasso
Vibro no seu pulsar
Voo na sua melodia por entre as notas soltas dessa cadência
Que me faz viva
E me transborda de amor
Cortei o cabelo. Mais ou menos como o da senhora da foto abaixo.
Está, talvez, um pouco maior e com menos franja...
O J. não gostou, porque nunca gosta de mudanças, das minhas mudanças.
Disse-me:
- Gostava mais como estava. Quando é que cresce?
- Oh, não sei, nem quero saber. Estou contente com ele assim. Já estava farta daquela gadelha enorme! - respondi.
Hoje, quando cheguei a casa, disse-lhe:
- Sabes, lá no trabalho toda a gente gostou do meu cabelo. Disseram-me que me ficava muito bem.
- Sabes, mãe, às vezes as pessoas mentem...
- Mentem?! Achas que estou feia?
- Não, acho que estavas mais gira antes.
- Mas estou feia agora?
- Claro que não. Tu és sempre gira.
- Oh, a sério? Nem sempre me acho gira...
- Mas és! Sempre, de qualquer maneira.
- Oh, que querido! Essa frase merece um grande beijo!
Beijei-o.
- Ah, e não é só de qualquer maneira, é também em todos os aspectos!
- Deixa-me dar-te mais um beijinho.
- E não estou a dar-te graxa. É verdade!
- Pois não. Ah ah ah ah! Sabe muito bem ouvir isso.
- É a verdade!
Perdermo-nos de amor é bom.
Amar loucamente, embriagarmo-nos de paixão, sorvermos o objecto da nossa loucura como se fosse a última gota de água no deserto e vivermos na inebriante insanidade do amor é o expoente máximo do êxtase amoroso.
Perdermo-nos de amor não é bom, é mais do que bom.
Perdermo-nos por amor não é bom.
Deixarmos de nos enxergar, desaparecermos no outro, prescindirmos das nossas escolhas, do nosso eu, por um outro, já nem é amor, é despersonalização e obsessão. É triste. É pedinchar um amor inexistente.
Perdermo-nos por amor é perdermo-nos simplesmente, e não nos encontramos mais.