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Aqui, fala-se de filhos e de tudo o resto...
Já o J. estava na cama, digo-lhe:
- Olha, vou deixar aqui na tua mesa, ao lado do saco do treino, um saco para a avó levar amanhã. Por isso, não te espantes quando o vires.
- Um saco? O que é que tem?
- É a minha cabeleira para a avó levar.
- Para que é que ela quer a tua cabeleira?
- Para dar à I.
- A I. também tem cancro? E quer a tua cabeleira?
- Tem. A cabeleira é para ela ver se quer e se gosta.
- Porra, mãe, tanta gente tem cancro!
- Pois é, é mesmo muita gente.
- E é sempre no cabelo...
- Não é no cabelo, é noutros sítios, mas muitas pessoas ficam sem cabelo.
- Porque é que o cancro faz cair o cabelo?
- Não é o cancro que faz cair o cabelo, é um medicamento para matar o cancro.
- Ah, então se a pessoa cortar o cabelo todo, deixa de ter cancro?!
- Não, J., a pessoa não fica boa por ficar sem cabelo. A pessoa fica boa porque o medicamento que faz cair o cabelo, mata o cancro.
- E se a pessoa não tomar esse medicamento?
- Morre. Pode morrer...
- Não há outros medicamentos?
- Agora já descobriram outros, mas há cancros em que ainda só este é que funciona.
- No outro dia, vi o T.A.. Ele anda sempre de gorro na cabeça. Também tem cancro, não tem?
- Tem.
- Porque é que ele está sempre de gorro? Não gosta de se ver sem cabelo?
- Provavelmente... Ou então tem frio na cabeça. Como ele tinha o cabelo grande, é capaz de ser por causa do frio. As pessoas que não estão habituadas a ter o cabelo curto, quando o cortam, ficam com frio na cabeça.
- Ah!
- Boa noite, menino, dorme que já é tarde. Dorme bem!
- Boa noite, mãe! Até amanhã!
Giras, giras... Super mega fan-tás-ti-cas!
Belíssima, não?
Uma preciosidade!
Hoje ao fim do dia, fui correr com o meu puto. (Ah pois, ele agora já é puto. É que isto de estar quase a fazer dez anos tem destas coisas, o estatuto muda num ápice!)
O puto, além de agora ser puto, corre que se farta e eu, eu vou atrás dele que me lixo! A arrastar-me...
Mas hoje, consegui o maravilhoso recorde de correr vinte minutos seguidos... Hã? Hã? Digam lá que não foi o máximo! Vá, digam lá, atrevam-se a dizer que não foi o máximo, que eu não publico o vosso comentário e pronto, faz de conta que se amedrontaram e perderam a coragem de dizer que não foi o máximo!
É óbvio que foi o máximo!!!!!
É claro que o puto corre sempre mais tempo e mais rápido do que eu, mas enfim, tem menos vinte e nove anos e este é um argumento a que me posso sempre agarrar!
Além de ter aderido à moda das corridas, também ando a dar numa de galinha.
Decoro os pratos com sementes, ora de chia, ora de outra coisa qualquer. Ficam giros, os pratos, todos pintalgados de sementes pequeninas.
Quanto ao resultado das corridas e das sementes, não noto nada. Mas que é fixe andar com os cabelos ao vento (ainda que eles estejam um bocado curtos para o efeito "gaja gira que corre") e comer comidas às pintinhas, lá isso é!
Por fim, e entrando no ponto do "raio c'a parta de como se chama aquela porcaria que as crianças vão ter que fazer no final do quarto ano" já deito aquela merda pelos olhos! E é claro que sou contra e que detesto a ideia do meu filho ter que fazer aquela porcaria. Ainda mais, porque aquilo não tem ponta por onde se lhe pegue e, em vez de exames, ou provas, ou o caneco, aquilo são ratoeiras para apanhar os ratinhos dos nossos filhos.
Assim, enquanto uns vão chumbando no quarto ano à conta daquela bosta, outros vão chumbando no sexto à conta de uma bosta idêntica, e os que chegam à universidade são em muito menor número do que os que lá chegam hoje em dia, o que nem sequer quer dizer que chegarão os melhores. Talvez os mais ardilosos...
É triste, muito triste, ver turmas inteiras a treinar intensivamente para fazer um teste, ou melhor dois, que não testa nada, a não ser se os professores treinaram intensivamente ou não os seus alunos para fazerem aquele cocó de olhos fechados. E enquanto os professores e alunos estão distraídos a treinar aquela merda, ninguém prepara as crianças para a nova etapa que se avizinha (talvez até porque como não vão ser muitos a lá chegar, isso interesse pouco) que é a entrada no segundo ciclo, ciclo este que traz a tira-colo uma carrada de novas disciplinas, um horário mais diversificado a cumprir, um conjunto de novas regras, uma colectânea de professores (mais pequenina do que há alguns anos, já que muitos também foram despachados como os alunos vão ser a partir deste ano) e mais colegas, maiores e mais fortes, a conhecer. E como os professores que não têm turmas de quarto ano e os pais que constituem as associações de pais andam distraídos com as geniais festas de finalistas, que são mais uma das merdices que inventaram para porem as crianças a brincar aos adultos (como se não tivessem tempo suficiente pela frente para encetarem brincadeiras parvas dessas) a preparação dos miúdos para esta nova etapa das suas vidas fica atirada para último plano, porque o que interessa é que cresçam depressa e vão "masé"trabalhar.
Enfim, o ensino está a caminhar a passos largos para deixar de ensinar alguma coisa e passar a apenas formatar os discos cada vez mais rígidos dos alunos e a escola a deixar de ter a função de formar pessoas e passar a ser única e exclusivamente uma linha de montagem de mão-de-obra inculta e barata.
Por isso e a partir de agora, eu e o meu filho, tal galinha e pintainho, vamos mas é dar umas corridinhas e comer sementes, que é bem mais instrutivo do que andarmos preocupados com estas cenas ou "raio c'a parta de como se chama aquela porcaria que as crianças vão ter que fazer no final do quarto ano".
O J. dá a prenda que fez na escola ao pai. Dá-lhe um envelope grande com uma espécie de placa identificativa lá dentro, daquelas que se põem em cima das secretárias, mas esta em vez do nome, tem uma mensagem escrita por ele e é feita de cartolina e não de metal.
O pai diz:
- Tão giro, foste tu que fizeste isto tudo?
- Não, eu só escrevi a frase, o resto foi a professora que fez. Vês, como a professora é tão querida que faz prendas para ti?
Acho graça a esta coisa dos dias disto e daquilo. Se já achava uma certa piada na vida real, começo a descobrir um encantamento diferente na vida em ecrãs de x polegadas. Se a loucura por estes dias, nas lojas, já era um exagero, a loucura pela mensagem mais pronta e sentida, no mundo cibernético, excede todas as minhas expectativas.
Pergunto-me "andamos à procura de quê?", "queremos provar o quê?". E as respostas que me assaltam são qualquer coisa entre a afirmação pessoal, a demonstração de que a embalagem não está vazia e o sentido da vida. E não me excluo do pacote, pertenço a este "nós", ou não tivesse eu este blogue onde escrevinho "cenas que me ocorrem na alma". Ou acho eu que ocorrem... Ou quero afirmar que ocorrem... Ou a vida só faz sentido se ocorrerem cenas dessas... Não sei.
A verdade é que não precisava de um Dia do Pai para me aperceber que o meu, e do meu filho, são os melhores pais do mundo (porque são o meu e do meu filho), ou de um Dia da Mãe para me sentir a Super-Mulher cá de casa, ou de um Dia da Mulher para ver o quanto estamos atrasados nisto da "igualdade de género", ou da Criança para amar um pouco mais o meu filho e perceber que este é um dia que já não posso celebrar como meu há anos.
A verdade verdadinha é que não precisava de nada disto para saber que cá dentro ainda há qualquer coisa que me mantém viva e que essa coisa não se compra nas lojas, que pode ser dada sem todo o mundo ter de saber e que não precisa de dias marcados para sair.
A verdade verdadinha é que o dia ser de qualquer coisa não nos faz melhor do que nos dias de nada e que o que andamos à procura, ou que queremos provar, ou está lá todos os dias... Ou, simplesmente, não está.
Ok, sou um bocado preconceituosa! Best sellers não são muito a minha praia!
O facto dos livros se venderem às carradas tira-me a vontade de os ler. É raro optar pela compra de um livro que se vende a rodos, prefiro quase sempre quaisquer outros. Oh pá, não sei explicar melhor, é coisa que me tira a vontade, o que é que querem?
Como já disse AQUI, tentei pegar o "bichinho d' Os Cinco" ao J. (ó sua tonta, e Os Cinco são o quê? Não são um monte de um best sellers?), mas parece que o entusiasmo por estes livros se esfumou com a mesma rapidez que surgiu naquele dia. Depois d' Os Cinco, que não chegou a acabar de ler, já leu vários outros livros, mas o que apaixonou o pequeno tem um nome que me faz uma certa comichão - Harry Potter!
O Harry Potter entrou cá em casa pela minha, e do pai, mãos.
No Natal, oferecemos-lhe um livro para ver se era este o estilo que mais o entusiasmava (mas na esperança de que não fosse) e, desde aí, o miúdo não larga o raio do feiticeiro. Vai a meio do terceiro volume e já me deu o toque para comprar o quarto.
Para quem não vai à bola com best sellers é um abalo difícil de controlar! Claro que a culpa é minha (e do pai) porque fui eu (nós) que lhe apresentei (támos) o maldito bruxo, mas também não era preciso o miúdo ficar assim tão viciado.
Ou era?
Há muiiiiiitos anos, na altura em que surgiu a epidemia "Harry Potter", eu trabalhava numa livraria e vi de perto como os miúdos invadiam a loja sempre que saía um novo livro. Era a loucura, uma loucura que nunca consegui entender... Primeiro, porque não gosto nem um bocadinho de histórias fantásticas, depois por causa da síndrome best seller que me impediu de, sequer, começar a ler estes campeões de vendas. Assim, fiquei-me pela leitura das contra-capas e, confesso, que não consegui alcançar o porquê das corridas às livrarias. Mas como corridas são boas, e ainda mais às livrarias, e muito mais ainda se por parte de miúdos, acabei por ficar só a desfrutar a coisa e desisti de entender.
Por ironia do destino, hoje, sou eu que corro para a livraria sempre que o meu filho está a um capítulo do fim dos livros. Claro que não é coisa que me rale, correr para livrarias, que eu até sou menina de passar lá umas boas horas assim como algumas pessoas passam em boutiques a experimentar roupa, mas faz-me um bocado impressão o MEU miúdo ser viciado NESTES livros e EU andar a correr atrás deles sem, sequer, saber bem porquê.
Faz-me sentir assim como que...
... um bocado gozada pelo puto da varinha mágica...
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Imagem roubada por aí
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Imagem roubada por aí |
O meu filho anda com a mania que já não quer ver desenhos animados. "Agora, quero ver filmes com legendas!" diz. Ir com ele ao cinema torna-se mais difícil. Ainda não tem idade, nem maturidade, para ver certos filmes e os que geralmente não impressionam nem são demasiado complexos são parvos.
No sábado, queríamos ir ao cinema, mas a escolha do filme tornou-se tão difícil que acabámos por não ir. Ficámos em casa, fomos buscar o saco de pipocas e vimos As Serviçais.
O J. sempre foi educado a não discriminar ninguém. Pretos, brancos, amarelos e às riscas são tratados da mesma forma. A cor, a orientação sexual, a condição socio-económica, as ideologias religiosas e/ou políticas são coisas de que não tomamos nota. Vá lá, das ideologias políticas tomamos. Até porque elas, às vezes, dizem-nos se estamos ou não a lidar com gente preconceituosa e discriminadora. Sim, as ideologias políticas podem dizer-nos isso. E as religiosas, às vezes, também. Mas... adiante!
Por aqui, ninguém é racista. Temos amigos negros, o J. é fã de basquetebol, onde os melhores jogadores, e seus ídolos, são negros, tem um treinador negro, desde o infantário que tem colegas negros. Ser negro, para o J., não é nada de estranho, antes pelo contrário, ser negro é quase uma condição para jogar bem basquetebol.
Durante o filme As Serviçais, a discriminação pela cor foi indignando o J. Perguntava se era mesmo assim, porque é que as pessoas julgavam e tratavam mal os outros só por serem de outra cor, porque havia transportes públicos e casas-de-banho separados para brancos e pretos e porque não tinham os mesmos direitos na sociedade. O meu filho deixou que a indignação das coisas absurdas o revoltasse. E foi dando sinais de que a injustiça vai ser coisa que não vai tolerar. E eu fui sentido algum orgulho. Apesar da desilusão com a raça humana que o fui vendo sentir, fiquei contente por a única intolerância que o assola ser para com a injustiça e a estupidez humanas.