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Aqui, fala-se de filhos e de tudo o resto...
Custa encaixar-me. Qualquer coisa impede que me adapte. Um pensamento, uma palavra, uma sensação... Qualquer coisa que não me sabe bem, um travo amargo na boca, uma comichão no dedo, um zumbido no ouvido... E um arrepio. Pêlos sempre em pé sem a razão do frio.
Custa identificar-me. Uma causa que não me cabe, uma camisola que não me serve, ideologia estreita ou larga demais. E uma nação estranha. Um quê de vazio num espaço desconhecido.
Custa encontrar-me. Dezenas de salas numa casa infinita. Caminhos tortos por corredores apertados, passos lentos na pressa de chegar, vagar azedo. E o ecoar do silêncio.
E sempre o espaço. O espaço que me aperta e desacerta para, enfim, me deixar perder.
Há lugares que nos habitam para sempre.
Mesmo que os tentem destruir, habitam-nos.
Há lugares que moram em nós, não no espaço que ocupam.
Que carregamos connosco para onde quer que vamos.
Há lugares assim, mais nossos que deles.
Tenho um aperto no peito permanente.
Já respirei fundo várias vezes seguidas, já abri a caixa torácica ao máximo, já tentei esquecer-me do aperto. Ele continua aqui. Como se tivesse cintos à volta das costelas, ele continua aqui a apertar-me.
A vontade de expelir qualquer coisa não me larga. Só não sei o quê.
E o aperto aperta-me muito.
Maldito!
Às vezes, gostava de ser pequenina outra vez...
Passar as tardes em casa da minha bisavó a fazer roupinhas para as bonecas. Acordar com o cheio do café da cafeteira da minha tia-avó e almoçar sopa de legumes e carne assada com puré.
Às vezes, apetecia-me ouvir a voz da minha bisavó outra vez, sentir o cheiro a sabonete das mãos do meu avô e ouvi-lo comer sopa e beber vinho tinto. Queria dar voltas de bicicleta à casa da minha avó até ela gritar para eu parar de marcar o chão do terraço com os pneus da bicicleta. Queria subir às árvores e ver gatinhos nascer.
Às vezes, queria sentar-me ao colo do meu pai a ver televisão, jogar crapô com a minha avó, comer pão com manteiga e Ovomaltine e fingir que ando a cavalo no corrimão do varandim. Queria andar de patins como se fosse uma patinadora que ganha todas as provas e cantar como uma cantora da Eurovisão.
Às vezes, queria ser uma índia e navegar de canoa debaixo da mesa da sala. Queria fazer suflé de peixe com a minha mãe e chamar-lhe brincada, brincar aos polícias e ladrões e ser os polícias, os ladrões e todas as outras personagens da história.
Às vezes, gostava de pedir desejos que eu só poderia formular quando me caíssem pestanas, que eu apanharia e apertaria entre o indicador e o polegar e teria de adivinhar se estariam coladas ao dedo de cima ou ao de baixo. Os meus desejos ainda seriam pintar-me como a minha mãe, ir à terra dos índios e atravessar a estrada sozinha.
Às vezes, queria ser pequenina outra vez e achar que ainda me falta muito tempo para ser grande.
Vazio de folha branca. Caracteres que chegam aos soluços mas nada dizem. Estado de folha e mente silenciosas.
Ecos de nada.
O meu filho anda com a mania que já não quer ver desenhos animados. "Agora, quero ver filmes com legendas!" diz. Ir com ele ao cinema torna-se mais difícil. Ainda não tem idade, nem maturidade, para ver certos filmes e os que geralmente não impressionam nem são demasiado complexos são parvos.
No sábado, queríamos ir ao cinema, mas a escolha do filme tornou-se tão difícil que acabámos por não ir. Ficámos em casa, fomos buscar o saco de pipocas e vimos As Serviçais.
O J. sempre foi educado a não discriminar ninguém. Pretos, brancos, amarelos e às riscas são tratados da mesma forma. A cor, a orientação sexual, a condição socio-económica, as ideologias religiosas e/ou políticas são coisas de que não tomamos nota. Vá lá, das ideologias políticas tomamos. Até porque elas, às vezes, dizem-nos se estamos ou não a lidar com gente preconceituosa e discriminadora. Sim, as ideologias políticas podem dizer-nos isso. E as religiosas, às vezes, também. Mas... adiante!
Por aqui, ninguém é racista. Temos amigos negros, o J. é fã de basquetebol, onde os melhores jogadores, e seus ídolos, são negros, tem um treinador negro, desde o infantário que tem colegas negros. Ser negro, para o J., não é nada de estranho, antes pelo contrário, ser negro é quase uma condição para jogar bem basquetebol.
Durante o filme As Serviçais, a discriminação pela cor foi indignando o J. Perguntava se era mesmo assim, porque é que as pessoas julgavam e tratavam mal os outros só por serem de outra cor, porque havia transportes públicos e casas-de-banho separados para brancos e pretos e porque não tinham os mesmos direitos na sociedade. O meu filho deixou que a indignação das coisas absurdas o revoltasse. E foi dando sinais de que a injustiça vai ser coisa que não vai tolerar. E eu fui sentido algum orgulho. Apesar da desilusão com a raça humana que o fui vendo sentir, fiquei contente por a única intolerância que o assola ser para com a injustiça e a estupidez humanas.
Tenho notado que o que se valoriza mais na beleza física das pessoas é aquilo que é artificial ou acrescentado com a intenção clara de as tornas belas. A verdadeira beleza, mesmo a física, é atirada para segundo ou terceiro plano.
Ou seja, o que se aprecia é o que não pertence às pessoas.