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Tempo Sem Fim

por Mammy, em 09.06.14

Cheiro da rua sem escapes

Ar, narinas adentro, até ao fundo

Céu rosa e amarelo lá longe onde a paisagem se faz tela

 

Saudades da terra e da erva

Saudades dos fios da palha nos dedos

 

Rua que passa na janela do comboio à distância do vento na face

Boca aberta e língua encortiçada pela pressa da viagem

 

Saudades do tempo sem fim

 

publicado às 00:43

Um Ano

por Mammy, em 08.03.14

Parece incrível, mas faz hoje um ano que a Silvina (Rita) escreveu o seu último texto.

 

Saudades tuas.

 

publicado às 12:19

Parceira de PET

por Mammy, em 06.12.13

Há uns tempos, durante a minha cruzada oncológica, fiz várias PET - Tomografia por Emissão de Positrões.

O exame não é doloroso, no entanto foi dos que mais me custou fazer. Requeria uma longa preparação de jejum e de imobilidade que, para uma pessoa como eu, cujo mau-humor se acentua quando exposta a factores como a fome, o frio e o sono, me deixava para lá do insuportável. Durante as longas horas de preparação só me apetecia bater em toda a gente que cruzasse o meu caminho. Como não o podia fazer, tentava dormir para esquecer a fúria que me invadia.

 

Num destes dias de tortura, dormi durante umas sete ou oito horas numa cama de hospital até me chamarem para a sala, dita, de preparação para o exame. Já tinha uma noite de jejum em cima e estava possessa. 

 

Tal como podem ler na definição de PET que linquei acima, é-nos injectada uma substância radioactiva antes do exame, que nos percorre o corpo e assinala os consumos de glicose anormais das células, uma das características das células tumorais. Antes ainda desta substância radioactiva nos entrar no corpo, dão-nos um relaxante muscular para que não sejam assinalados os normais consumos de glicose da actividade muscular. Depois temos que ficar deitados, calados, imóveis e em jejum até vir o produto radioactivo, encomendado no próprio dia do exame, que demora séculos a chegar. Para que a tortura não seja completa, deixam-nos beber água e fazer xixi.

 

Nesse fatídico dia de extremo sofrimento, quando estava já deitada na sala de preparação, com o relaxante muscular no bucho e a desejar dormir mais um pouco para esquecer a fome, chega a minha parceira de exame. Mulher de uns cinquenta anos, de peruca na cabeça e ligada a uma qualquer ficha que não descobri onde estava. Senta-se na poltrona a meu lado, tira a peruca e diz:

- Ufa, finalmente posso tirar esta porcaria!

Posa-a no colo e começa a falar do seu percurso oncológico. Conta que fez uma data de operações, exames, quimios, radioterapia. Fala sem parar. Vou-lhe respondendo uns "hum, hum", "compreendo", "pois". 

Chega a enfermeira e diz que não podemos falar. A minha parceira cala-se um bocadinho e eu fecho os olhos na esperança que o meu sono a demova de voltar à fala. 

Dali a pouco, volta ao ataque. Fala, fala, fala. Conta tudo ao pormenor. Até que desisto de dormir e decido ficar a ouvi-la. Na verdade, não a oiço muito bem, devido à fome já ter tomado posse dos meus ouvidos, mas decido tentar estar atenta ao que me diz.

 

Durante a sua prosa interminável, fui-me apercebendo que aquela mulher era o maior exemplo de vivacidade que encontrei naquele local moribundo. 

Noutra situação ninguém diria que era portadora de cancro nem que já tinha passado por um infindável leque de exames e tratamentos. Estava pronta para a vida e cheia de positividade. 

Falava comigo como se nos tivéssemos encontrado no cabeleireiro e discutíssemos coscuvilhices da vida de famosos que víamos nas revistas cor-de-rosa que íamos desfolhando, enumerava os órgãos mutilados tal jogador que distribuí cartas para uma nova partida de sueca. Não havia ali um resquício da irritabilidade pela fome que também devia sentir e que, a mim, me atormentava, nem se ralava com a imobilidade ou o silêncio que nos tinham imposto. Falava da vida, da luta do cancro, dos filhos e dos netos da mesma maneira, ao mesmo tempo que ia rodando a peruca nos dedos. Não chorava, nem se queixava das atrocidades que lhe tinham feito. Sorria até. Aceitava, assim simplesmente, todo aquele processo de vida ou morte como se se tratasse de mais um contratempo que lhe foi imposto. 

 

Ao ouvi-la, sentia-me cada vez mais piegas por estar naquele estado, quase incontrolável, de pré-assassinato em massa. 

Eu era a menina mimada, pouco habituada a ser contrariada, e ela uma explosão de energia positiva perante as maiores adversidades. 

Fui encolhendo. Eu, mulher de um metro e oitenta, fique reduzida a meio metro, perante a grandiosidade daquela minha parceira de PET. Sentia-me, a cada palavra dela, mais pequenina e merdinhas. 

Mas, finalmente, pus o cérebro a funcionar, que deve ter registado uma actividade fora do normal na PET, e resolvi ir assimilando o ensinamento daquela mulher. Demorei algum tempo, mas consegui digerir a mensagem que, posteriormente, me deu uma postura diferente perante a doença e os tratamentos que se seguiram.

 

Quando me chamaram para a sala do exame, despedi-me com um sentimento de pena da possibilidade de não a voltar a ver. 

Disse-lhe apenas o costumeiro "boa tarde e as melhoras!" do IPO, mas com vontade de dizer mais qualquer coisa que acabou por não sair.

 

E nunca mais a vi.

publicado às 15:20

Extremamente Rasca

por Mammy, em 14.08.13

Hora de almoço. Desço a rua em direcção ao Centro Comercial onde geralmente almoço. Passo pelos sem-abrigo já meus conhecidos. Já não são três, são cinco ou seis. Estão reunidos em volta dos pertences que lhes sobram. Talvez tomem conta deles para que não desapareçam como tudo o resto que já lhes desapareceu...

 

Chego ao Centro Comercial e dirijo-me a uma qualquer cadeia de fast-food. Há imensa gente. Vejo-me rodeada de estrangeiros. Pedem comida em línguas diferentes. Uns tentam falar português. O empregado não percebe o que dizem, mas finge que entende qualquer coisa. Repetem, agora em inglês. O empregado articula um inglês macarrónico na resposta. Finalmente, acertam no menu. Pedem comida que poderiam comer em qualquer canto do mundo. Desta vez, vêm comê-la a Portugal. Usam notas altas para pagar. Vão, satisfeitos de tabuleiro na mão, procurar um lugar onde saborear a comida internacionalmente rasca. Vão contentes e não seguros, tal Leonor vai à fonte descalça. Não sabem, mas os seus pés também vão nus. Vão nus até às almas. Mas vão contentes...

 

Sou atendida e procuro o meu canto para repastar um lixo idêntico ao dos estrangeiros. Também eu descalça, mas segura. Segura de que preferiria estar no lugar deles, de alma nua, a comer comida internacionalmente rasca noutro qualquer país do mundo. 

Encontro-o a custo e sento-me para almoçar sem especial prazer. Observo a azáfama da multidão numa constante troca de cadeiras. 

Pouso os olhos na senhora que procura restos de comida nos tabuleiros abandonados. Já a conheço, como aos sem-abrigo. Encontra um copo meio-cheio. Leva-o consigo e continua à caça de algo que lhe encha o estômago.

Enquanto como, sou abordada por uma outra senhora com um carrinho de bebé, que me pede dinheiro. Respondo-lhe que não tenho e continuo a comer o meu lixo refinado. Sigo-a com o olhar. Pede dinheiro a mais gente que a despreza. Tal como eu. Tal como eu...

 

Acabo a refeição e sigo para fora daquele antro de incoerências.

Deixei o tabuleiro na mesa para a senhora dos restos. Que bondade, nacionalmente rasca, possuo!

 

Pelo caminho, quase sou abalroada por centenas de jovens que carregam mochilas, tendas, lancheiras, chapéus com nomes de bebidas, peles morenas e olhos ressacados. Trocaram, numa herdade do sudoeste alentejano, as centenas de euros que os pais lhes deram por alucinações, e ilusões, que lhes enchem as algibeiras. Vêm de rastos, mas seguros de que gastar os últimos trocos em comida internacionalmente rasca é fixe.

 

Finalmente, abandono o antro. 

 

Volto a cruzar-me com os sem-abrigo que já conheço. Conto-lhes os carrinhos de supermercado. Já são oito...

Continuo a caminhar. Vou de rastos, descalça, mas segura. 

 

Segura de que este é um mundo... 

 

...EXTREMAMENTE RASCA.

publicado às 02:54


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